
“A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles.”
Gilberto Freyre
A Mulher Negra brasileira tem sua origem no continente africano, onde, juntamente com seu povo, fora escravizada e trazida para o Brasil. De forma desumana, nos Navios Negreiros, sob o sacolejo das altas ondas marítimas, antes de pisar em solo brasileiro a Mulher Negra foi destituída de suas funções. Rainhas, guerreiras, escultoras, dominavam a função de cesariana, da autópsia, desenvolviam primorosos sistemas de escritas, tinham elevados conhecimentos de astronomia e matemática. Sua beleza física e espiritual destacava-se ante o olhar do seu povo. Do cultivo de plantas e ervas, tiravam alimentação e remédios naturais para a família. Cultuavam seus deuses, respeitava as tradições em suas tribos de origem.
Desembarcando em solo brasileiro, esta mulher negra perde sua condição humana, pois foi tratada meramente como coisa, mercadoria. Escravizada sob a tutela da Monarquia e, posteriormente, da República, viveu mais de 300 anos exercendo funções obrigatórias de amas de leite, negras cozinheiras, acompanhantes das sinhazinhas.
Após mais de três séculos de escravidão, luta e resistência da população escravizada, a organização do movimento abolicionista, aliada ao apelo do comércio, puseram fim oficial à escravidão no Brasil, quando em 1888 foi sancionada a Abolição da Escravatura. Os elementos outrora escravizados foram lançados nas ruas brasileiras, sem rumo e compensações por terem sido submetidos à vergonha da escravidão. Sem acesso a oportunidades de emprego, de educação, de moradia, de terra e de dignidade, a mulher negra, após a Abolição, é a primeira a sustentar a família negra candidatando-se ao subemprego que era ofertado na época, seja como cozinheira ou faxineira.
Hoje, em pleno século XXI, percebem-se na sociedade brasileira reflexos da baixa qualidade de vida que a Mulher Negra sofre, causada principalmente por esse passado escravista, que veio produzir uma desigualdade social entre elemento negro e o elemento não-negro.
Quando vamos desagregar cor/ raça e gênero, notamos nitidamente que a mulher negra entre os seguintes elementos: homem não-negro, mulher não-negra, homem negro e a mulher negra no que se refere à desigualdade de oportunidades e a falta de representatividade nos cargos de poder e estratégico desta nação é a que fica no solo desta pirâmide social em virtude do que diz respeito ao racismo e sexismo neste país.
Outra questão a ser observada em relação à Mulher Negra é no que toca à sua saúde e ao tratamento oferecido pelo Estado Brasileiro. Estudos revelam casos frequentes de hipertensão arterial, em que a taxa de mortalidade por síndromes hipertensivas nas negras é quase seis vezes maior do que nas não negras. Outro caso é a Diabetes Mellitus Tipo II, da qual as negras têm 50% mais de chances de desenvolver diabetes que as não negras.E, finalmente, notamos o quanto a beleza feminina negra foi subestimada na representatividade na mídia escrita ou televisada. Nota-se nas capas de revistas e nos papeis principais de 99% das novelas brasileiras a supervalorização da beleza feminina européia, configurando no estereótipo da mulher não-negra o repúdio da beleza feminina africana com seus olhos rasgados, pele da cor da noite, gestos não tão comedidos e sorrisos ampliados e sonoros, apesar de sofrer tanto neste solo. Que mãe gentil és tu Brasil ?
Autor: Anderson Fuscão.
Presidente do Movimento Negro Dandara.




